Centro de documentação
e arquivo feminista
elina guimarães

Michelle Perrot - uma inspiração para uma luta ainda actual: quebrar a invisibilidade histórica das mulheres

Manuela Tavares
Investigadora em Estudos sobre as Mulheres

Michelle Perrot, a grande historiadora da História das Mulheres esteve entre nós nos dias 26, 27 e 28 de Novembro de 2012.

Retenho da sua conferência no ICS “A propos de Lucie, ouvrière en soie, et de l’histoire des femmes” o registo de uma notável investigadora que conseguiu retirar da invisibilidade uma operária têxtil do início do século XX em França, cujas lutas tinham tido significado histórico no seu tempo, mas que ficaram esquecidas na enorme nebulosa que sempre acompanha a vida das mulheres e a sua história. O enorme sucesso do seu livro Melancolie Ouvrière (Bernard Grasset, Paris, 2012) tornou possível dar vida e trazer para a memória colectiva a história de Lucie Baud.

A forma meticulosa como conduziu a investigação, inserindo-a nos contextos sociais, culturais e temporais, o recurso aos pequenos arquivos locais, à imprensa local, aos registos fotográficos e familiares, mostrou as particularidades que reveste a investigação histórica sobre as mulheres, lembrando aquilo que, uma outra historiadora, Françoise Thébaud, nos aponta como fundamental para a investigação: a existência de pequenos arquivos locais e específicos.

Em artigo escrito em 2004, « Entre histoire e mémoire », no livro Le siècle des féminismes (Paris, Les Éditions de L’Atelier, p. 29), Françoise Thébaud assinala como arquivos importantes: Le Centre d’archives du mouvement des femmes allemandes à Kassel (créé au début des années 1980) ; la Fondation Marthe Gosteli (Centre d’archives pour l’histoire du mouvement des femmes suisses, près de Berne), le Centre d’archives pour l’histoire des femmes, Bruxelles, 1995, Le Centre de Documentation Marguerite Durand (Paris), considerando que é graças a este tipo de arquivos, que foram conservados materiais de diversas organizações (folhetos de propaganda, cartazes, cartas, notícias de acontecimentos da época, dossiers temáticos, elementos biográficos), assim como parte da imprensa feminista, de manuscritos, de fundos particulares. A estas fontes juntam-se materiais audio-visuais, filmes, fotos, registos.

É nesta linha de pensamento e de necessidade de preservação da memória histórica dos feminismos que se insere a existência do Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães.

É também Michelle Perrot que afirma: “D’abord il importe de prendre en compte des sources nouvelles: archives privées, archéologie du quotidien, sources orales pour les périodes récents pour lesquelles subsistent des témoins” (PERROT, 2008:144).

Ainda, segundo Michelle Perrot, estamos num tempo histórico em que o feminismo já não é o parente pobre da historiografia, em que vozes isoladas nas universidades tinham dificuldade em se fazer ouvir (PERROT, 2004:9). Apesar da evolução, na última década, dos estudos sobre as mulheres em Portugal, o nosso tempo histórico ainda não corresponde ao que se vive em outros países onde a história dos feminismos evoluiu para abordagens mais globais e menos guetizadas. O espaço intelectual estreito, resultante do silenciamento dos feminismos enquanto movimento social, e os estereótipos baseados numa análise preconceituosa e distanciada têm levado a encarar a história dos feminismos como uma “história militante”, um campo marginal da própria história. Todavia, a história dos feminismos insere-se na história da humanidade, pelo que não se pode falar de uma “história das mulheres” separada da história. O que se pretende é reinscrever as mulheres na história, dando-lhes a visibilidade necessária para se ter uma outra visão da própria história. Também ao estudar os feminismos como movimentos protagonistas de transformações sociais, mais não se procura do que reinscrevê-los na história da humanidade.

Não sendo a história um registo neutro do passado, mas um produto escrito a partir de posições assumidas e porque os feminismos precisam de uma memória histórica, “construir essa memória e transmitir uma história dos feminismos é um desafio político e historiográfico”, tal como afirmava Anne Cova, na sessão de abertura do seminário evocativo do I Congresso Feminista e da Educação realizado em Maio de 2004 em Lisboa.

Na história dos feminismos a questão da memória é, de facto, fundamental por duas razões: a história tradicional não abriu espaço para que as mulheres surgissem como sujeitos históricos; o eclodir dos movimentos feministas situa-se numa “história do tempo presente”, para a qual a reconstituição da memória, o recurso a fontes orais e a fontes escritas de alguma especificidade são imprescindíveis.

O tratamento e conservação de fontes orais, é também hoje motivo de preocupação à medida que a sua utilização tem vindo a ganhar uma maior legitimidade na investigação histórica. Poderemos mesmo interrogar-nos se uma história dos movimentos feministas será possível sem se recorrer às fontes orais, ou seja aos testemunhos, às vivências das mulheres que foram protagonistas desses mesmos movimentos.

Na década de 1970, quando a história das mulheres se estava a desenvolver, a falta de informação histórica sobre a vida das mulheres era enorme. Deste modo, a história oral emergiu como uma ferramenta essencial. Frontiers, a journal of Women´s Studies esteve na vanguarda da emergência do campo da história oral quando publicou, pela primeira vez, artigos sobre o tema, em 1977 (NEVINS, 1996). Num primeiro momento, para responder às críticas feitas em torno da “subjectividade” das fontes orais, foi preciso falar dos silêncios e das próprias subjectividades inseridas nos documentos escritos, dado que estes resultam, não só dos factos históricos, mas da percepção dos acontecimentos por parte dos seus autores. Muitas historiadoras não se limitaram a sublinhar o androcentrismo das fontes, mas também o âmbito da pesquisa, que se reportava apenas à esfera pública e, ainda, as categorias sociais que excluíam a variável “sexo”. A história oral e a “história das mulheres” forçaram um outro olhar da história tradicional sobre realidades ignoradas. É preciso, contudo, entender que as fontes orais dão simultaneamente acesso aos factos, mas também ao significado que lhes é atribuído pelas pessoas entrevistadas, sendo que essa percepção dos acontecimentos é influenciada pelas experiências vividas posteriormente aos mesmos.

O projecto “Memória e Feminismos” que o Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães está a desenvolver está inserido nesta perspectiva de recolha de histórias de vida de mulheres, dos seus percursos no século XX em Portugal. Centrado, na fase actual, nas regiões da Madeira e do Minho e tendo recebido uma pequena subvenção da CIG – Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, este projecto pretende-se expandir a outras regiões do país.

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