Centro de documentação
e arquivo feminista
elina guimarães

Ecofeminismos(S)

Manuela Tavares
Investigadora em Estudos Feministas
CIEG, ISCSP.
Membro da direcção da UMAR

Legado ou não de uma filha ecologista social, que apesar de tecer duras críticas aos interesses económicos que destruíam a Natureza, não deixava de acreditar que o ser humano devia agir socialmente sobre o biológico, há muito que sentia necessidade de estudar o Ecofeminismo e de escrever algo sobre esta corrente feminista, muitas vezes associada a modelos de subsistência e de ligação material e espiritual das mulheres à “terra-mãe”.

Um pouco de história

A feminista francesa Françoise d´Eaubonne estabelecia, em 1974, a primeira relação entre ecologia e libertação das mulheres ao afirmar que estas tinham de ter o poder de controlar a sua fertilidade para que, deste modo, se pudesse salvar o planeta da sobrepopulação. Ao utilizar pela primeira vez a palavra ecofeminismo Françoise d´Eaubonne identificava um movimento político pela defesa do ambiente e do feminismo, associando a opressão das mulheres à opressão da natureza.

Na década de 1970 muitas mulheres tinham-se colocado à frente de lutas contra os resíduos tóxicos, contra centrais nucleares e bases militares. O ecofeminismo tornou-se mais conhecido no contexto destes movimentos. A 1ª Conferência Ecofeminista “Mulheres e vida na terra” foi realizada em Março de 1980 em Amherst nos EUA, onde foi afirmado por uma das organizadoras – Ynestra King – que a devastação da Terra e dos seres vivos pelas grandes empresas e pelas ameaças nucleares das potências militares era um problema feminista. Tratava-se de identificar estas ameaças com a mentalidade masculina que também queria negar às mulheres o seu direito ao corpo e à sexualidade. Estabelecia-se, desta forma, uma relação entre a violência patriarcal contra as mulheres e a Natureza.

Em 1987, no congresso “Mulheres e Ecologia” realizado em Colónia, na Alemanha, Angeline Birk e Irene Stoehr falaram da contradição entre a lógica da emancipação surgida no século das Luzes com a sua grande valorização da Ciência e da Tecnologia e os resultados dessa evolução – a destruição ecológica. Deste modo, o conceito de emancipação representaria o domínio sobre as mulheres e a natureza.

Em 1992, Carolyn Merchant no livro Radical Ecology: The Search for a Liveable World considera que a corrente feminista que mais se liga ao ecofeminismo é a do feminismo cultural e elabora um associação histórica e cultural entre as mulheres e a natureza, considerando que elas podem libertar-se a elas próprias e à natureza através do ativismo ambiental. Associa ainda a biologia das mulheres e a natureza como fontes de poder para resistir à “tecnologia masculina”.

Estavam lançadas as bases para a contestação do ecofeminismo pelo seu essencialismo por parte de outras correntes feministas.

pdfVersão integral – Ecofeminismo(s)

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